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SUICÍDIO É TEMA DE AUDIÊNCIA PÚBLICA NA CÂMARA MUNICIPAL

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Epidemia silenciosa, o suicídio é a causa da morte de uma pessoa a cada 40 segundos no planeta, segundo dados da Organização Mundial de Saúde de 2018. Em Rio Grande, de janeiro a julho desse ano, 13 pessoas já tiraram a própria vida. Para discutir esse grave problema de saúde pública, profissionais de diversas áreas se reuniram em uma audiência pública - proposta pela vereadora Professora Denise Marques (PT) - na noite da última terça-feira.

A parlamentar proponente afirmou que falar é a melhor forma de dar visibilidade ao tema. Ela lembrou que foi com esse objetivo que o setembro amarelo, mês de prevenção ao suicídio, foi criado em 2015 pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo Conselho Federal de Medicina e Associação Brasileira de Psiquiatria.

Denise explicou que a maioria dos casos de suicídio podem ser evitados e, para isso, é preciso unir forças de diferentes áreas como saúde, educação e assistência social para discutir as formas de prevenção. Ela destacou que é preciso conhecer os sintomas, as causas, as formas de evitar o suicídio e lutar pela construção de mais políticas públicas nessa área.

A dirigente do núcleo de saúde mental da secretaria de saúde, Robini Duarte, falou sobre a alta procura pelos serviços dessa rede em Rio Grande. Segundo ela, a demanda diária é muito alta e os profissionais existentes não conseguem dar conta.  A secretaria hoje está com edital aberto para contratação de médicos psiquiatras com a intenção de fortalecer a rede, pois muitas pessoas chegam com transtornos mentais que exigem o tratamento medicamentoso.

Robini salientou que o suicídio precisa ser entendido como um problema de saúde pública e que as doenças que afetam a saúde mental são altamente destrutivas. Para ela, é essencial que o assunto seja cada vez mais debatido, não só em setembro, mas diariamente.

O professor e médico psiquiatra do Hospital Universitário, Dinarte Ballester, fez uma breve apresentação sobre o tema. Ele destacou que não existem evidências cientificas fortes sobre a eficácia das intervenções para prevenção ao suicídio. Contudo, defendeu que poder falar sobre o assunto é essencial para diminuir o estigma.

O médico ressaltou que o suicídio é um problema complexo, causado por diferentes fatores. No entanto, detectar e tratar adequadamente a depressão reduz as taxas, já que a maioria dos casos está associada a essa doença.

Dinarte argumentou, ainda, que há em curso no mundo políticas de interdição da palavra, sejam em regimes autoritários ou nos ditos democráticos. Muitas políticas de morte têm sido adotadas, como as que aumentam o acesso a armas e o uso de agrotóxicos. Para ele, a sociedade precisa construir políticas que valorizem a vida. Caso não haja o cuidado da vida como um todo, o médico afirmou que será muito difícil dizer às pessoas para que elas não se matem.

O debate também foi enriquecido com estatísticas sobre a situação do município. A coordenadora do núcleo de prevenção à violência da vigilância epidemiológica da secretaria de saúde, assistente social Isabel de Sá, trouxe os dados de notificação de autoagressão, tentativas de suicídio e de suicídio de 2017 até julho de 2019.

A faixa etária com maior registro de tentativas é a de 20 a 39 anos, sendo que a maioria desses casos é por envenenamento e medicação. Em relação ao sexo, as mulheres tentam mais o suicídio que os homens. Sobre as autoagressões, a faixa etária com maior incidência é a de 10 a 19 anos.

Em 2017, a cidade registrou 30 suicídios, em 2018; 17 e de janeiro a julho de 2019; 13.  80% desses casos são de homens, a idade predominante é de 20 a 39 anos e o meio de agressão mais recorrente é o enforcamento.

Em sua fala, a psicóloga do Centro de Atenção Psicossocial Infanto-juvenil (CAPS I) Carla Degani salientou que o suicídio mata mais que as guerras e as calamidades. O novo boletim do Ministério da Saúde desse ano aponta que essa é a segunda causa de morte de jovens entre 15 e 29 anos no Brasil, sendo que no estado do Rio Grande do Sul já alcança a primeira posição. Esses dados devem servir de alerta para construção de políticas públicas eficazes.

Claudia afirmou que o CAPS I atende por mês de 200 a 300 adolescentes que já tentaram o suicídio. Outra ocorrência comum é a autolesão que, apesar de não estar diretamente ligada ao suicídio, mostra o grande sofrimento que esses jovens passam.

A psicóloga destacou, ainda, que é preciso combater o preconceito que envolve a busca de ajuda. Para ela, além da medicalização, é preciso que o tratamento dessas doenças seja feito por meio de terapia. A sociedade também precisa aprender a escutar e dialogar, sem julgar.

Psicóloga de formação, a segundo Sargento Jéssica Pires do 3º Batalhão de Bombeiro Militar, disse que o cuidado com a saúde mental vem sendo trabalhado na unidade. Enquanto a taxa de homicídio no Rio Grande do Sul, em 2016, era de 11 por 100 mil habitantes, a de integrantes da Brigada Militar e do corpo de bombeiros chega a 30,7.

Os profissionais de segurança pública, ao entrar nas corporações com o intuito de protegerem o outro, descuidam de si. Jéssica reforçou que é preciso que se entenda que esses trabalhadores, assim como profissionais da saúde e professores, não são máquinas. Para isso, é preciso que escolas, empresas, órgãos públicos se unam na prevenção ao suicídio e que a sociedade seja construída para que crianças tenham planos, projetos e expectativa de vida.

A presidente do conselho municipal de saúde, Eliana Pereira, defendeu a ampliação da rede de saúde mental, com a contratação de mais profissionais, e o debate sobre os transtornos mentais e o suicídio em sala de aula. Eliane enfatizou que as políticas públicas precisam chegar até as pessoas que estão sofrendo.

Já a psicóloga especializada em depressão na gestação, Marla Afonso, trouxe à tona uma discussão ainda invisível. Há poucos dados na literatura mundial em relação ao suicídio de gestantes, contudo, estima-se que 20% das gestantes de países de terceiro mundo sofram de depressão.

A especialista listou uma série de alterações que acontecem no organismo da grávida que podem levar ao desenvolvimento desse quadro. Por ser um momento que, culturalmente, está ligado à felicidade, a mulher ainda pode ser julgada por não estar feliz com a gravidez. O aumento da depressão e da ansiedade pode levar aos casos de depressão pós-parto e, ainda, ao suicídio, que apresenta taxas expressivas em puérperas nos doze primeiros meses após o parto. Além disso, a tentativa de alívio dos sintomas depressivos com álcool e drogas, leva ao aumento da mortalidade neonatal.

Outro assunto abordado no evento foi o programa promotores da paz, desenvolvido pela guarda nas escolas da rede municipal desde 2017. A guarda municipal Renata Dimússio explicou que a iniciativa foi criada com o intuito de promover ações educativas e discutir condutas de comportamento nos jovens, levando-os a refletir sobre suas ações.

Atualmente, o programa atende 15 turmas do sexto ano em encontros mensais que abordam temas como pertencimento, violência, bullying, drogas, segurança e uso das redes sociais.  Ao longo do trabalho, por meio de relatos dos alunos e professores, foi possível identificar a intensidade da problemática da saúde mental.

Renata afirmou que a prática de autolesão com perfurocortantes é comum entre os estudantes, como forma de amenizar as dores emocionais. Por meio do trabalho da guarda, o objetivo é falar sobre a prevenção e orientar as crianças a procurar ajuda dos responsáveis ou da escola.

A vice-presidente do Lar Irmã Maria Tereza, Débora Pickersgill falou sobre as práticas integrativas de saúde oferecidas gratuitamente pela casa. Ela explicou que muitas famílias vêm em busca de ajuda no lar por causa de casos de suicídio. No local, são oferecidas aulas de meditação, reiki e cromoterapia. Também há a realização de palestras, grupos de estudo e de artesanato. O intuito é auxiliar na recuperação e oferecer formas de convívio e de engajamento social.

A presidente do Centro de Valorização da Vida (CVV) em Rio Grande, Aline Staford, lembrou que desde o final do ano passado um grupo de voluntários vem lutando para implantação de um posto desse serviço na cidade. Desde agosto, cerca de 50 pessoas estão se capacitando para trabalhar na escuta ativa por meio do 188. Através de uma parceria com a prefeitura, a sede do centro está garantida e tem entrega programada para 30 de setembro. O serviço deve entrar em funcionamento entre meados de dezembro e início de janeiro de 2020.

Aline explicou que o CVV está há 57 anos no Brasil e, desde 2017, atende de forma gratuita pelo 188 prestando apoio emocional a pessoas que procuram ajudam. Ela afirmou que essa é uma forma de prevenção, assim como o debate sobre o assunto e a divulgação de informações sobre suicídio à população.

Representando a Universidade Federal do Rio Grande, a diretora do núcleo de assistência à saúde Aline Ávila falou sobre a necessidade de se entender que a depressão e o suicídio atingem todas as classes sociais. De acordo com ela, há um número grande de afastamentos de servidores da FURG devido a problemas de saúde mental.

Aline citou algumas das ações que a FURG tem colocado em prática para promover saúde. Em média, a clínica psicológica atende a 250 pessoas por mês, entre alunos, servidores e comunidade externa. A universidade também tem implementado práticas integrativas em saúde, com projetos de yoga, reiki e massagem. A unidade que cuida da saúde do trabalhador foi descentralizada e levada para perto do Hospital Universitário.

A audiência pública, presidida pelo vereador Edson Lopes (PT), ocorreu no plenário da casa legislativa. Além das autoridades já citadas, o evento contou com a participação de membros da comunidade e dos vereadores Benito Metalúrgico (PT), Rovam Castro (PT), Rogério Gomes (Cidadania) e Júlio César (MDB).

Assessoria de Imprensa